Amigo
(Luis Lagarto)
Sua mão em meus ombros
E olhos que contemplam o mesmo Nada:
Sabemos quem deixamos de ser
E encontramos no tênue sorriso do silêncio
(Ou no vazio de uma palavra qualquer)
Justificativas tão mútuas quanto necessárias.
Identidades em con-fusão
Hoje, duas; amanhã, milhões
E no final, nenhuma:
O mundo é um só, nós não sabemos ser tantos
E, se eu sei quem você é,
É só porque você não me conhece.
Águas Passadas
(Luis Lagarto)
Eu te busco em coisas pequenas
(Esqueço tua voz no aparelho
E busco teus olhos numa memória fugidia).
Eu te busco na paz da minha tristeza
(Esqueço a promessa, o possível, o fato
E volto àquele deslugar tão meu).
Eu te busco na distância física:
Eu te roubo dos braços dos outros
Tantos outros
Todos os outros
Desejos que concretizas em meu lugar.
Eu te roubo, egoísta, do meu sonho — meu! —
Mas entre as árvores,
Longe das luzes, fora das leis,
Dentro do jogo, perto dos hálitos,
Perdes tudo
E pões tudo a perder.
Em mim perco-me, também, de ti,
Por um minuto só ou dois ou quinze,
Ou por horas e horas sem fim,
Mas nunca depois do segundo seguinte.
Nunca depois do momento seguinte.
Eu te busco no desejo negado, contido,
E te encontro no olhar que me cura,
No corpo que me acende e aquece,
Nos lábios que dizem nada e dançam
E prometem dentes e línguas e beijos.
Eu te encontro na ferida aberta
E sem querer te amo em outra presença.
- Mood:
pensive
(Luis Lagarto)
Do silêncio, o motivo
-- No meio da tarde, como sempre,
Questões sentam-se à beira das calçadas de meus lamentos
E assistem passar momentos, lentos
(Como se o relógio precisasse de vento para lhe soprar os ponteiros)
Como Zepelins no céu indiferente de um dia abafado e sem maior propósito.
Indolentes, modorrentas, no meio da tarde questões fazem de mim o produto de sua digestão.
Ninguém diz, ninguém adivinha
Da atitude, a raiz
-- Fincada em atos que se alimentam do que há de noturno em mim
E quase tudo é noturno em mim
E quase sempre que um sol nasce em minha alma
É só para fazer acentuar as sombras
E reforçar o que já deveria estar claro: quase tudo em mim é noturno
E inacabado.
Para onde vão as musas
Quando a tarde atinge o auge da estagnação?
(Talvez mais tarde tanta solidão sirva a algum propósito.)
(Talvez eu devesse me importar.)
(Talvez eu devesse fazer algo a respeito.)
(Talvez mais cedo hoje eu me lance às ruas sem propósito algum.)
Ninguém, ninguém, ninguém
Saberia o que fazer, de qualquer jeito,
Ainda que eu pudesse dizer como ou o quanto
Não entender > agredir > fugir > cansa;
E é por isso que eu não digo:
Eu não preciso conviver com isso.
Tudo seria mais simples se tivéssemos toda a coragem de nossos olhos.
Soneto petrarquiano dodecassílabo ABBA/ACCA/DDA/EEA
(Luis Lagarto)
Que muito longe ainda há de carregar-me:
Do ser humano, que me tenta além da carne
Tenra e do sangue a jorrar em profusão?
Reconheço-me, nas questões do coração,
Menos que apto, pois sei-me todo instinto:
Se fosse gente, interpretar tudo o que sinto
Custar-me-ia tanta dor? Seria em vão?
Luar cruel, que a cada ciclo em mim desperta
A besta-fera que procura a queda certa
E faz-me presa de mi'a própria ambição!
Em nada inovo ao mudar a minha forma:
Aos pés ou patas, todo caldo se me entorna;
Lobo ou homem, é igual a solidão.
(luis lagarto)
-- e esse é meu máximo, em se tratando se insultos
seu jeito eternamente negativo
suga
a minha
paciência
nhém, nhém, nhém...
lá vem
é preciso, contudo, que você fale
pois de suas palavras vêm toda a luz do mundo
todo mundo então tem defeitos
-- que não conhecem discrição, note-se
todo mundo então comete erros
-- que são sempre tão crassos que ofendem
todo mundo então ousa desarrumar-lhe os cantinhos
-- que, sejamos francos, são o mundo
e desafiar-lhe os preceitos
-- que desatino!
seres tão pequenos
em saber e destino
iludidos
se pensam que estão prontos
pra entender-lhe os motivos:
-- não estão!
nem precisam
que lhes baste, a todos, a honra de servir-lhe de espelho
- Mood:
depressed
(luis lagarto)
(transluzente, relúcida, fugaz
flutuando entre meus devaneios
com a graça de uma folha seca bailando aos ventos do outono)
que, mesmo imaterial e inatingível, cobre-se
por pudor, frio
-- pois é outono, lá fora, apesar do mormaço aqui dentro --
ou por instintivo medo
musa de casaco
desfilando pela sala seu olhar que eu sempre adivinho triste
tantos anos, e eu ainda não sei como evitar
o inexorável hiato na conversa frouxa:
o silêncio é a língua franca do sentimento;
que é que você me diz quando me olha assim?
musa de gorro e capuz
...mentira, que é só um casaco
o que lhe protege as formas de minha sempre crescente avidez
eu já vi o que eu queria: contornos
eu já senti o que eu queria: perfumes
eu já lhe latrocinei o toque dos dedos
e sonhei
e, sim, eu já sei onde tudo termina
musa envolta em uma túnica de educadas e apropriadas mentiras:
a musa é, por assim dizer, um mito
com o qual eu me cubro
-- pois é inverno aqui dentro, apesar do outono lá fora --
e uma carapuça
e uma única luva
-- são mais fortes os ventos no alto do pedestal?
-- somente quando por mim suspiras. e tu? não aprendestes ainda
-- pode ser, mas e o tempo?
-- que passe. vem muito antes dele o silêncio.
--
--
(Luis Lagarto)
Deixar falar
Deixar chegar
Deixar continuar falando
Deixar tentar
P’ra conquistar
É preciso continuar tentando
Deixar nascer
Deixar morrer
Deixar continuar querendo
Deixar crescer?
P’ra acontecer
É preciso continuar crendo
Deixar surgir
Deixar sumir
Deixar continuar vindo
Deixar cair?
P’ra construir
É preciso continuar insistindo
Silenciar, sub-reptício, o temor.
Submeter-se serenamente ao des-amor.
Servir a dois senhores, sendo um o horror.
Deixar, apenas, que é sempre assim:
Deixa.
Tudo é desencontro
Mas é preciso continuar vivendo.
(Luis Lagarto)
E entre rostos que conheço
Entre jeitos, entre gestos
Entre olhos, entre olhares
Entre corpos, entre almas
Entre mim e entre eles
Entre em mim o que desconheço.
Em lugares que conheço
E entre rostos que não
Reconheço.
Recomeço.
Descontinuo.
Desapareço.
(Luis Lagarto)
Todo rosto que surge à porta
É o seu rosto que surge à porta
E olha para mim com ares de propriedade
Todo corpo na porta imita-lhe as formas
E do meu corpo as portas entreabertas
Dão passagem a este ar de frustração que
Respiro?
(A cada inalação meus pulmões se enchem de mato recém-cortado. O mato cresce lento.)
Eu te espero por vidas inteiras a cada segundo
E todas essas vidas são nada
Como todas as outras, são mortes:
Eu te espero por mortes inteiras
A cada segundo
Uma morte
Por dentro. Por dentro. Por dentro. Por
Dentro eu sinto quando você chega
E o tempo! o mundo! essas pessoas
Todas falam (eu sei)
Do seu rosto que surge à porta
Mas não olha, perscruta
Com a cautela de quem traça estratégias
Ou planeja fugas, ou batalhas
Estamos em guerra?
(Meus sentimentos em estado de sítio Meu amor, a ameaça Meu coração, o inimigo)
Eu sou um soldado
E você a bandeira costurada em meu peito aberto
Estamos em guerra?
Você me detona com sua logística sádica
Meus átomos desagregam-se
E você parece mesmo feliz com minha devastação:
Passeia tranquilamente sobre meus destroços
Destrói-me de novo com seu sorriso que de nada sabe
Acaba comigo
E se trai em mim sem saber
Estamos em guerra?
Contra quem luto?
E por que lutar se já estou derrotado,
Ferido,
De longe eu te vejo feliz
Permitindo-se a outros
Quero gritar
Que você chegou, enfim
Mas se esqueceu de trazer-me consigo
Se me calo (e quase me contenho)
É porque você está tão longe
Que não me ouviria, e nem quereria
Interromper esse acesso de beneviolência:
Você se dá a todos
Sem saber que era meu isso que você distribui
Era meu, só (m)eu, era
Eu quem deveria ir embora sem olhar para trás.
(Luis Lagarto)
No silêncio das folhas
Todo poeta se tortura
Com a ânsia por castigo dos culpados
Um punhalzinho esferográfico, uma lâmina
Deixando um rastro de sangue azul ou preto
Ou cor-de-momento
Maculando a alvura da pele
De celulose gravando
Todo poeta é cego
Mas seus olhos ora vazios viram
Todo poeta é descrente
Mas seus olhos, ora vazios, viram-se
Saber-se desprezível, vil, vão
Mentir descaradamente
Poética mente, disfarça
Todo poeta desconhece sanidade, sensatez
Toda linha é um último suspiro de alívio.
